O DIÁRIO PREMATURO E UM TANTO QUANTO SURREAL DE SULLEN, A SUICIDA (EM MUITAS PESSOAS)

Blogs:
Esfera dos Intocáveis

Posts anteriores:



Powered by Blogger

eXTReMe Tracker


[jeudi]

Concepcion de la Barre, 15 de fevereiro de 2145

Olá amado Micha. Como você está? Espero do fundo de meu coração que esteja bem. Aposto que nesse momento deva estar surpreso lendo essa carta. Pois é, voltei. Antes que rasgue essa folha, vou te pedir para que tente ler até o fim. Sei que está acostumado à fina literatura, que lê os grandes clássicos e principais autores contemporâneos. E eu, uma pobre puta, tenho pouco a te oferecer em termos literários. Entendo se achar essa carta uma merda, mas afirmo que ela é sincera e cheia de sentimentos. Por favor, leia tudo e só depois amasse ou mostre para seus amigos intelectuais rirem da mesma forma que riram das outras cartas. Da mesma maneira que riam de mim na minha frente. Jamais vou esquecer a cara de deboche que fizeram quando você me levou para o Sarau na casa do Itamar. “Micha, se a gente fizer mímica ela vai nos entender?”. Eu nunca fui burra, Micha. Fui educada nas melhores escolas, aprendi sete idiomas e comecei uma faculdade, mas como nunca tive futuro, larguei tudo isso no passado. A ignorância ajudava nos momentos difíceis. Além disso, quem quer uma puta inteligente e que sabe mais que você?

Nessa hora, já deve estar queimando a carta. Caso ainda esteja lendo, deve estar se perguntando o motivo de eu ter te escrito. Provavelmente, acha que é para contar alguma surpresa do tipo “tive todos os filhos que você me fez abortar”. Nada disso, pode respirar tranqüilo que interrompi todas as gravidezes mesmo quando não tinha a menor certeza que você era o pai. Estou escrevendo para dizer que ainda sinto o mesmo amor por você. Aquele amor que fica ainda mais forte cada vez que chega a época de Páscoa. A lembrança sempre fica ainda mais forte. Você foi o maior amor que encontrei em uma Semana Santa. Toda vez que vejo um ovo de chocolate, meu coração palpita forte. Nunca entro nas Lojas Americanas em abril com medo de ter um enfarte ao passar pelo túnel de ovos de páscoa. Para você ter idéia, uma vez fui paga por um cliente, representante da Garoto, com um ovo número 50. Passei duas semanas em coma profundo.

Desde então, engordei bastante. Confesso que não tenho mais aquele corpão curvilíneo. Tenho estrias pelo corpo todo e não há creme da Avon que dê jeito. Minhas amigas putas até fizeram uma assembléia para me expulsar do cortiço. Para elas, eu afastava a clientela e derrubava o preço do programa. Chorei e pedi um mês. Depois de muito enfiar o dedo na goela, consegui pelo menos caber dentro de uma cinta que disfarça minhas banhas. Se você voltasse para mim seria mais fácil eu entrar em forma. Morando com você não sobraria dinheiro para comida, já que você gasta tudo com crack e livros. Bastariam poucas semanas para eu deixar de ser essa baleia cheia de celulite e virilhas assadas e seria uma junkie magérrima como as modelos que vestidas enfeitam suas paredes e peladas ficam penduradas nas oficinas mecânicas do Centro. Sei que você já deve ter estraçalhado essa carta em milhões de pedaços mínimos, mas se eu tiver sorte, essa última frase vai cair no seu colo e você poderá ler esse “sempre te amarei, beijos” com que terminarei a carta.

Micha, sempre te amarei!!!
Beijos,

Suellen




por Suellen & suas amigas putas 8:25 AM

___________________

Galícia, 27 de janeiro de 2058

Suellen amanheceu em uma casa que não era a sua. Ela já deveria estar acostumada com a situação, mas cada despertar trazia a tona o mesmo incômodo. Estava sem nenhuma peça de roupa no corpo e toda lambuzada de azeite de dendê. O lençol de branco apenas as bordas que arrastavam no chão. Os cabelos de Suellen traziam resquícios de uma viscosidade rala e se misturavam com pedaços de carne podre que ela não conseguia identificar. A luz do sol era tão forte que marcou em sua barriga a forma da almofada que lá repousava. Suellen se levantou devagar e o dendê começou a escorrer por suas pernas. Antes de chegar à porta escorregou duas vezes, sempre batendo a cabeça na quina da cama. Duas vezes a mesma queda. Duas vezes o mesmo ferimento. Ela resolveu ir engatinhando até a sala. Por não saber o caminho deixou um rastro por toda a casa. Das portas por onde passava ouvia apenas sussurros e gemidos de gozo. Escutou a risada de uma das suas amigas putas em uma delas. Bateu insistentemente. Bateu insistentemente. Bateu insistentemente. Bateu. Bateu. Bateu. As risadas só ficavam mais fortes até que sua amiga vomitasse – sem parar de gargalhar. As paredes da casa estavam marcadas com a silhueta de Suellen. Achou um celular, mas ele só ligava para um telefone trancado em um dos quartos. Suellen ligava obstinadamente. Ligava compulsivamente. Ligava freneticamente. Ela ligava. Suellen ligava. Ligava. Ligava. Ligava. Desistiu quando a bateria acabou. Não havia um só canto do corredor sem marcas de azeite. Suellen voltou para o quarto e depois de passar pela porta escorregou duas vezes. Quatro vezes a mesma queda. Quatro vezes o mesmo ferimento.



por Suellen & suas amigas putas 9:35 PM

___________________

[dimanche]

Chateau Crème de la Crème, 25 de outubro de 1976

Suellen resolveu fazer um jantar. Nunca teve menor jeito para cozinha, mas nada seria empecilho para deixar feliz seu novo amor. Bateu na porta de Lúzi, sua amiga puta cozinheira. Pediu o livro de receitas e explicou a situação. Lúzi olhou para a cara de Suellen e meio ofendida disse que ela tinha que tomar vergonha na cara e parar de querer fazer o impossível. Não satisfeita afirmou que Suellen deveria assumir que seu único talento era abrir as pernas ou ficar de quatro, o resto era invenção de moda. Suellen implorou pelo livro de receitas e ignorou as palavras da amiga. Lúzi bateu a porta na cara de Suellen que ficou com uma mecha de cabelo presa na dobradiça. Gritou por duas horas para que Lúzi abrisse a porta, mas a amiga puta cozinheira fingiu que nada ouvia. Suellen ficou mais três horas com o cabelo preso na porta e ficaria lá mais tempo. Acordou no chão com o couro cabeludo sagrando e a mecha arrancada na dobradiça. Tirou a meia do pé e estancou o sangue. Jogou o cabelo por cima da ferida e correu para casa. Talvez pudesse achar uma receita na televisão naqueles programas que vendem de tudo. Nem tinha notado que já era tarde e assim que entrou encontrou o novo amor com mais quatro amigos, todos de cueca, tomando cerveja na sala enquanto assistiam os gols do dia e um filme pornô. O novo amor perguntou se Suellen poderia dar para os cinco naquela noite e disse que gostava muito dela. Suellen foi para a cama, se deitou e perguntou que iria primeiro.


por Suellen & suas amigas putas 7:46 AM

___________________

[jeudi]

In train de, 04 de setembro de 1999

Resolvi mudar meu jeito. Já tinha sofrido, já tinha apanhado, chorado e tentado. Ah, como eu tinha tentado. Vestida com a minha melhor roupa – vestido que tinha ganhado de minha avó quando ela tinha 17 anos e morava em Oslo. Comprei um sapatinho de bico fino e bordados sutis – só tinha uma numeração três números acima e na confusão o vendedor colocou o pé esquerda quatro números menor. Corri na casa de uma amiga puta e pedi sua meia xadrez emprestada, ela fez que não fosse emprestar e eu, mudada, parti para cima dela e peguei a meia a força.

Quando olhei para meu relógio eram 21 horas, ele nunca marca a hora certa, logo poderia ser duas horas antes ou depois. Isso pouco importa. Comi rapidamente uma sopa de legumes e fui para o para a estação pegar um trem. Seria dentro de um que minha mudança seria concretizada. O vestido ficou um pouco curto e estava amarelado desde sempre – minha avó sempre se recusou a explicar que macha era aquela. Não liguei para isso também.

O trem passaria às 22 horas, eu entraria e escolheria uma cabina na primeira classe. Lá, encontraria a Bonitinha que namora o Harco. A idéia era puxar um papo com a Bonitinha e no fim prenda-la no trem e subornar o maquinista para seguir um pouco além do ponto final. Com a Viviane, peguei um contato de toda a Cia Ferroviária que ela já tinha atendido, ou seja, seria fazia o suborno. O trem atrasou e para ganhar tempo não parou na minha estação. Corri para que pelo menos a Bonitinha me visse da janela. Acabei tropeçando no sapatinho maior.


por Suellen & suas amigas putas 1:50 AM

___________________

[lundi]

Le magasin des morts, 02 de novembro de 2207

Suellen percebeu que sempre fez tudo de maneira errada. Não, ela não pensava em suas desventuras amorosas. Fede, o carinha, Lulas, Gizé, Minhoquinha etc. Nenhum desses passava pela sua mente. Nem mesmo as suas tentativas de relações lésbicas, as quais suas amigas putas sempre viam como puro interesse financeiro. “Ela acha que vai ser musa dos postos de gasolina”, debochava a mais puta das amigas putas, enquanto as outras copiam sangue de tanto rir. Uma teve um aneurisma uma vez. Suellen no começo se sentiu vingada, mas, ao primeiro revirar de olhos da amiga, a culpa tomou conta dela que se jogou na frente do primeiro ônibus que passou na sua porta. Foi mais um tentativa fracassada. Mas, também não era amizades falsas que ela fazia de errado e sim, suas tentativas de se matar.

Suellen nunca planejou devidamente nada. Era sempre assim: brigava com um se jogava no mar, com outro pulava de um prédio, com uma amiga e tentava um atropelamento. Sem nunca pensar se a maré estava cheia ou vazante, se o prédio tinha mais que três andares, ou ainda se a velocidade da via era além de 30 km/h. Ela também percebeu que nunca pensava no depois. Para onde iria? Como iria? Com quem? Detalhes que podem até não fazer diferença para depois que se morre, mas quando se planeja a morte passa a ser um incentivo ou um desestímulo.

“Eu não podia simplesmente ignorar toda a melancolia que carreguei em vida e morrer de maneira simples, indigente. Eu precisava de tudo nos conformes. No dia que Carminha estava por um fio de vida, fui até a funerária preferida que ficava no caminho da minha casa para o cemitério e comecei a escolher um caixão para minha amiga puta irmã de guerra. Ela sempre foi espaçosa e eu queria algo que se parecesse com ela. O vendedor disse que apesar de terem poucas opções na loja, eles podiam encomendar alguns modelos exóticos ou adaptados. Ele tirou da gaveta do armário de alumínio, onde guardava um vidro com vísceras, um catálogo com um palmo de grossura. Fazia tempo que não chegava tão perto de um orgasmo. Ignorei o meu telefone vibrando para ter tempo de gozar antes da metade do fim das páginas. Estava muito bom. O vendedor me via gritar e pensava que era tristeza, resolveu me deixar sozinha. Quando eu ia substituir o telefone por um círio percebi que a chamada era do hospital. Carminha estava fora de perigo, tudo não passava de um espirro preso. O clima tinha sido quebrado. Resolvi então escolher um esquife para mim. Pensei em um de vidro e madeira canadense, mas do jeito que minhas amigas putas eram putas era capaz delas no dia do meu funeral seduzir o vendedor, trocar por um modelo de compensado, ficar com a diferença e ainda comprar pelas horinhas de prazer. Escolhi um modelo feito de eucalipto e pintado de azul turquesa. Era o que apodrecia mais rápido e assim, eu não correria o risco de ser jogada novamente em vida a força. O vendedor disse que se eu deixasse ele me mostrar sua coleção de candelabros, ele me daria um desconto. Pedi que ele excluísse os de sete pontas e se limitasse ao de uma ponta só”.


por Suellen & suas amigas putas 4:45 AM

___________________

[samedi]

Du sonolé, 04 de Abril de 2078

Querida Suellen,
Mais uma vez você se fodeu. Eu já cansei de te avisar, mas você sempre faz o que os outros querem e como muita gente quer muita coisa... Você acaba confusa e parada no meio da estrada. Quando você me falou que ia viajar, eu já previa que tudo não daria certo. Ao ler seu bilhete para mim, só pude comemorar a minha previsão. Desculpe, mas alguém precisa ser feliz nessa vida. Você agora deve estar se sentido a pior das piores, mas eu não. Seria mentiroso de minha parte dizer que estou mal por você. Estou ótimo. Minha vida está uma maravilha. Tenho um bom emprego, recebi uma herança, tenho uma mulher que abre a buceta quentinha todas as noites para mim e não reclama em me fazer um bom fio terra e cunilíngua exemplar. Juro que se ela tivesse um pau, eu pedia para ela me comer também. Acho que acabei escrevendo mais do que devia, mas sabe desse meu gosto híbrido. Quando terminei com você foi como se eu tivesse virado uma pessoa tão melhor que me manter ao seu lado mais um segundo seria um crime contra mim mesmo. Sei que você me ensinou muitas das coisas que eu sei. Aliás, se hoje sei escrever é graças a você. Para um pedreiro analfabeto como eu era, hoje poder me expressar em português, espanhol, inglês, francês, russo e italiano, é um vitória e tanto. Sempre falo isso nas pregações que faço pelas igrejas da vida. É claro que omito que aprendi tudo isso com uma puta. Por mais legal que você seja, seria demais para eles aceitarem que uma puta me passou tudo isso – e se eles soubessem que você é suicida... Suellen, esse seria o momento que eu escreveria que você deve continuar a sua vida e esperar a hora que seu grande amor aparecer, porém sejamos sinceros: isso nunca vai acontecer. Eu fui a melhor coisa que apareceu na sua vida, tenho certeza disso. Melhor que eu, ninguém. E você terá sempre que ter em mente que provou do melhor, mas não ficou. Paciência, você não é a primeira perdedora que conheci e nem será a última.

Abraços carinhos,

Ass: O carinha...


por Suellen & suas amigas putas 4:11 AM

___________________

[lundi]

Chez-moi (je pense), 16 de dezembro de 20??

Já faz um bom tempo que estou aqui sentada nessa cadeira. Para ser sincera, não tenho mais noção de nada. Se alguém me perguntasse há quanto tempo eu estou nessa posição, eu não saberia responder. Pelo modelo do meu vestido, tem no mínimo 7 anos. Afinal, esse babado é bem a cara de dos “anos 7 anos” atrás. Porém, há 7 anos esses babados eram uma releitura-retrô dos mesmos babados de 10 anos antes e levando em consideração que a moda precisa de mais de um ano para pegar é capaz de que eu esteja aqui por uns 25 anos. Nem sei porque penso nessa reposta, pois ninguém nunca aparece aqui para me visitar. Até os paraibas vendedores de redes e os Testemunhas vendedores de fé desistiram de mim. Carteiros? Faz tanto tempo que nem me lembro a cor do uniforme e os confundo com qualquer carinha cafona com bolsa do lado. Minhas últimas visitas foram os funcionários da companhia de energia elétrica e de água. Simpáticos. O primeiro esperou eu tomar os 8 potes de sorte que tinha na geladeira antes de me deixar sem luz. Ainda contou até 5 para eu juntar um par de velas e um isqueiro. O segundo, permitiu que eu enchesse a minha banheira para ter água nos dias posteriores. Pelo menos há uns 15 anos que sempre tomo banho na água dessa banheira. Lembro que foi antes de relançarem essa moda do babado. Já tentei me afogar 4 vezes nessa banheira, mas com o tempo a maior parte da água evaporou e não dá para eu ficar totalmente imersa nela. A solução seria um mergulho de bruços, mas que dignidade eu teria em ser encontrada nessa posição?

Me perdi no tempo, aqui, sentada nessa cadeira. Lembro que ela foi um presente que papai me deu. Ele tinha roubado de uma vizinhas que morreu de tanto balançar nela. Seu cérebro ficou do tamanho de uma azeitona preta. Os movimentos fizeram com que os neurônios e toda a massa encefálica se compactassem. No fim o barulho da cabeça da velha era igual duma caixa oca com uma pedrinha dentro. Como ela nunca parava de balançar, a pedra foi batendo de um lado a outro e ficando cada vez mais veloz a ponto de perfurar o crânio e voar janela a fora. Dizem que ela ainda ficou balançando sem cérebro por uns 15 dias devido o movimento pendular. Só parou porque papai roubou a cadeira. Por precaução e para despistar, ele serrou os pés da cadeira. Dava até para balançar, mas só para os lados – o que depois de 30 segundos era cansativo. Se ainda fosse de balanço, pelo tempo que estou sentada aqui, ou eu já seria uma acéfala ou carregaria uma ervilha dentro da cabeça. Ah papai, você não tinha o direito de serrar os pés dessa cadeira!


por Suellen & suas amigas putas 1:40 AM

___________________

[dimanche]

La Republique, 02 de Novembro de 2045

Suellen sentia uma certa estagnação em sua vida. Enquanto todas as suas amigas putas passavam uma longa temporada pelo estrangeiro, ela se via fazendo a mesma peregrinação pelas esquinas da cidade. Já não ganhava tanto quanto antes, mas se sentia meio livre das crianças e de qualquer casamento. Lesada tentou mais uma vez amar. Correu para casa nesse dia e ignorou todas as 3 carroças e 4 carrinhos de papel que mexeram com ela. Definitivamente não era hora de caridade. Em casa, pegou sua agenda telefônica que era tão caótica quanto esse diário. Tentou a letra M, sabe-se lá porque era a única que tinha sobrado intacta da briga que tinha tido com uma das baixinhas do passado. Se o Carinha visse ela na letra M, pensaria logo que a chamada seria para ele. Ledo engano, Suellen tinha riscado com rimel seu nome da página. Ligou, para o primeiro M. ele atendeu e foi atencioso como sempre. Suellen se sentiu prestigiada e pensou que seria mais fácil do que imaginava. Perguntou para M se ele continuava bem casado com aquela grega. Ele disse que sim, apesar de não estar apaixonado por ela. Suellen já se sentia a amante oficial. O papo flui e M avisa que está de saída. Tinha marcado com uma mulatinha que conheceu em Atacama. O samba da mulatinha estava pondo todo o casamento dele em perigo. Perguntou se Suellen aceitaria emprestar seu apartamento para o encontro e se limparia tudo depois. Nessa hora Suellen já estava com o canivete na Aorta que nem ouviu o resto da proposta. Pensou que seria melhor mais uma tentativa. Continuou na letra M. O Carinha ainda pensaria que era para ele, mas Suellen tem seus toques de mula. Pensou no novo M. carne nova, dessas que nunca tinha experimentado. Imaginou-se indo de férias para praias do litoral de Piauí. Esse era o M que ela precisava na sua vida. Livre e dono de uma boca de fumo. Enquanto o telefone chamava, uma das suas amigas Putas mandou um web-torpedo para ela. “Estou indo na casa de M, vou gozar muito hoje e por cortesia da casa. Deixa uma quentinha no forno para mim que vou chegar só de manhã. Bjmiligasiempre”. Suellen foi refletir com a cabeça no forno ligado e acesso!


por Suellen & suas amigas putas 4:05 AM

___________________

[vendredi]

Avenue de la Vitorie, 07 de setembro de 2017

Suellen saiu entre carros. Sempre faltou a ela coragem de um suicidio propriamente dito. Ele dava uma ajudinha apenas. Atravessava no final aberto para carros, tomava banho em áreas perigosas no mar e sempre andava de madrugada pelas áreas mais ermas da cidade. Mas, quem nunca teve seu dia de Suellen? Era um desespero sem tamanho para ela ficar nisso que chamavam de dia. Suellen até queria ser feliz, mas cada vez tinha menos paciência para esperar. Ela sempre tinha a sessão de estar atrasada e ficava o dia a espera de casamentos serem desfeitos.

Um cara prometeu para ela um pequeno apartamento de um cômodo ao lado da sacristia da catedral. Ela até ia aceitar, mas desconfiou quando ele disse que ela deveria ser vestir com freira e também fazer algumas trabalhos braçais durante o dia. o pior foi quando ela descobriu que deveria satisfazer as vontades de muitas noviças rebeldes. O cara seria quase um califa. Suellen nunca gostou da fantasia de odalisca e negou a oferta tendo um caso com dois flanelinhas da praça em frente ao seu prometido quartinho. Ela lembrava dessa historia enquanto se equilibrava no canteiro central de uma auto-pista.

Indecisa não sabia se seria melhor se atropelada pelos carros da esquerda ou da direita. Sempre quicava de um lado para o outro. Se achava rebelde com a atitude. Uma suicida confusa que andava na ponta de um salto quinze. Uma das suas amigas putas passou na hora no momento que se limpava de um lips service. Deu um tapa da bunda de Suellen e a convidou para uma cachacinha no boteco hype da cidade. Suellen aceitou e mais jurando para si mesma que no outro dia se mataria sem falta. Sem falta!


por Suellen & suas amigas putas 2:01 AM

___________________

[jeudi]

Le Clinique, Temps Pasé

Apesar de puta, Suellen jamais aceitou ser amante de ninguém. Sua educação conservadora associada a sua ética profissional sempre nortearam seus dias. Ela nunca se gabou pelas ofertas que teve de ganhar uma quitinete em Jardim da Penha ou no Flamengo para ser puta de um cliente só. Na verdade, foram apenas duas ofertas e vindas de garotos com menos de 16 anos. Mesmo assim foram ofertas. Isso de não aceitar ser amante, também fazia ela perder clientes, já que ela tinha desistido de marido. Nessa época, ela nem cogitava filhos também. Havia dois clientes que ela sempre desejou que a ligassem. Eram clientes que se encaixavam exatamente no seu perfil. Um gostava de música andina e tinha coleção de filmes do cinema italiano contemporâneo. Era fã do Rocco Sinfredi. Sempre tentava imitar suas ereções e gemidos de prazer. Ele conhecia Suellen antes dela ir para a vida (ela não fazia idéia de quando começou no metier, mas tinha certeza que ele era familiar de antes). Seu nome era Orca, mesmo que ele não fosse nem gordo e muito menos assassino. "Só mato se for de prazer" costumava falar. Orca teria conhecida Suellen no dia que voltando de carro da locadora de vídeos passou por ele parou. Quando Suellen ia até seu carro, o orelhão que estava próximo tocou e ela atendeu. Pensava que ser seu último cliente que tinha pagado o programa com moedas de um real antigas. Antes que dizesse um "alô", uma de suas amigas putas entrou no carro de Orca e os dois seguiram rumo a algum parque da cidade. O outro cliente-desejo era mais evasivo. Pouco dele ele sabia. Apenas que ele tinha um olho de vidro. Diziam que na verdade eram os dois, afinal ele demonstrava mau gosto extremo. Suellen encarava como atitude. Para ela, não é qualquer um que usa bermuda jeans escuro com mocassim amarelo e cinto de zebra. Ele chegou, na primeira vez, de bicicleta monark amarela e de cestinha. Mas nesse dia Suellen precisaria atender um cliente seguido de outros e todos moravam muito longe a ponto dela precisar pegar três conduções para ir e mais duas para voltar (tinha que caminhar na volta dois quilômetros). No final do dia, Suellen tinha alguns trocados e células mortas de pessoas que nem lembrava o nome, mas que nunca se esqueciam dela. Ela tentava ser feliz, mas tadinha, não nasceu para isso.


por Suellen & suas amigas putas 3:24 AM

___________________

[samedi]

Champs Élyseés, un jour de má vie!

O Carinha dizia que me amava. Eu nem lembrava mais de Fede, das crianças de ninguém. O Carinha dizia que me acamava de tal forma que até Henrique acreditou e se afastou para não atrapalhar o Carinha. Marcamos uma lua de mel, numa pensão luxo nos Campos Elíseos. O quarto era lindo e tinha vista para a Cinelandia, mas engraçado que não tinha nenhum cinema lá. Mas, de noite e de dia eu via muitas luzinhas acessas com pessoas brincando de ser Saci-Pererê. Só no cachimbinho.

Fui buscar o Carinha na estação da Luz. Ele estava com a cara meio fechada. Eu perguntava o que era e ele nada respondia. Eu ficava triste. Ele disse que tinha presentes para mim. Eu fiquei feliz. No quarto, ele ia me dar um beijo, mas na hora esqueceu como se beijava. Abriu a bolsa para pegar meus presentes. Dois repolhos um roxo e um branco. Não entendi nada. O Carinha disse que a sala dos dois era uma maravilha e eu ia ter que comer. Aceitei. Depois ele me apareceu com um frango d'água que tinha dentes tortos. Achei estranho. Disse que o repolho era servido com o frango ou o frango com repolho. Eu esqueci.

Chamei ele para deitar. Ele disse que eu até poderia deitar com ele, mas que eu iria dormir na poltrona porque ele era do tipo que tinha ataques epiléticos enquanto dormia e não queria me machucar. Nisso eu deitei nos braços dele. Era bom. Ele pegou os repolhos e os frangos e colocou na cama também. E assim, passamos a nossa lua de mel: deitados numa cama com dois repolhos, um frango d'água e com Lulas escondido de baixo do colchão.


por Suellen & suas amigas putas 3:34 PM

___________________

[mercredi]

Barroland, (eu me perdi na data)

Ai a babaquinha da Suellen ficava no canto chorando. Lulas tinha lhe dado uns bons tapas na cara e o outro Carinha tava envolvido com mais uma baixinha. Suellen é tão idiota. Tipo, ela tem um super corpo que conquistou a base de muita ralação com um cirurgião que tinha feito estágio com o Pitanguy na Ilha de Caras. Fiquei puta, fiquei putinha mesmo e sem ganhar grana alguma. Cheguei para a dona do hotel em que trabalho e disse "vou resolver umas paradas, amanhã me arreganho em dobro e não reclame".

Puxei a vaca da Suellen que acho que está na Índia e meti a porrada na cara dela. "Mulé, se tá pensando em ficar nessa vida a vida toda? Sai do baldeeeeeee". Tomei essa porra do diário da mão dela e disse "vamos avacalhar essa bagaça". Sai quicando atrás deles. Encontrei Lulas assistindo Malhação com a baixinha, fui dando logo um chutão naquela porteira (eu tava com uma bota lida que comprei no Araguaia). A baixinha tava chupando aquilo que ele chama de pau. Deu um pulo e antes que ela viesse com um dá linceeeeença, enfiei minha unha na cara dela. Me senti a Wolverine da Zona! Puxei aquele cabelo feito a babylise (sei lá como escrever essa poooooora) e arrastei a cara dela por toda a avenida. O covarde do Lulas saiu correndo. Eu ainda me acerto com ele.

Passou uma mobilete com um cara de mullets, parecia que nunca tinha visto mulher. Eu sei que sou exuberante, ok! Falei "querido, passa a motoca que dou uma garagem por dois mese!". Ele disse que estacionava numa vizinha de meio quarteirão. Eu ri da cara dele, "o idiota. Acorda! Eu me oferecendo e você ai cheio de graça". Suellen, cochichou que o cara de mullets era o Carinha. Logo a porra da vizinha era a baixinha II a missão. Fui pegando ele pelo colarinho mesmo e gritei "me leva na casa dela". Subi na mobilete, suellen na Garupa, e o Carinha correndo. "A partir de hoje Suellen não desce dessa merda e você vai ter que engolir a fumaça dela, se não enfio o carburador no seu cu!". A Baixinha II era deplorável, dei um espelho para ela. Tadinha se internou em um educandário. Suellen já ia ficando com pena da galera. Passei de leve a roda da mobilete nela que tomou tento. Enfim, acho que vou para o céu.



Por Bina Vizcaya



por Suellen & suas amigas putas 1:57 AM

___________________

[jeudi]

Dans la rue, 15 de Fevereiro de 2068

Suellen é uma vaca. Profana não, vaca ordinaria mesmo. Como ela é burra. Hoje, fomos convidados para uma festa, das grandes. E ela preferiu ficar amoada em casa. Não entendo, não entendo. Suellen fica triste com tudo. Suellen nunca aprende. Esse masoquismo e essa tendência suidida dela me incomoda. Dizem que é seu charme. Tenho minhas dúvidas. Eu fico imaginado se vale a pena sofrer por um cara como o Lulas. Vou descreve-lo só para constar como ela sofre por pouco. A começar pelo nome estranho Lulas. Já tentei compreender esse plural, mas desisti. Dizem que é por causa do presidente. Coisa de petistas utópicos. Lulas é muito mais novo que ela, foi criado pela avó e isso já diz tudo. É uma criança mimada. Porém acha que é adulto e maduro. Suellen, puta vivida e rodada caiu nessa sabe-se lá como. Continuando: Lulas até dois meses atrás sofria de obesidade mórbida. Pensava uns 179 quilos. Emagreceu bem rápido e com isso virou um poço de flácidez. Pode parecer pouco pólido da minha parte, mas a verdade é que ele ainda é barrigudinho e tenha a bunda bem mole. Ele tem a pele machada de sol e pau pequeno de pele escura. Suellen, minha linda o que você viu nesse sujeito? Pergunto isso para ela todos os dias. Ela nunca responde. O máximo que me contou foi que a paixão por ele ficou mais forte depois que ele tentou matá-la. Era uma dessas noites bem quentes e abafadas, ele disse que ela era pegajosa e empurrou a puta da Suellen do 7º andar. Ela sobreviveu, afinal se um dia tiver que morrer será ela mesma a causadora. Desde então, a lesada atribuiu a sua "salvação" a uma ligação extra-terrena com Lulas e resolveu não prestar queixa. Eu digo para ela que se ele ainda fosse bem dotado dava para entender.

Por Sheeraika (sob influência de Henrique que me dedava)



por Suellen & suas amigas putas 4:27 AM

___________________

[mercredi]

Le Flamengue, 31 de janeiro de 2012

Nunca entendi. A Suellen é mesmo uma idiota masoquista. Me chamou para viajar com ela para o nada e eu topei na hora. Ela disse que tinha alguns compromissos inadiáveis, mas eu lembrava que ela tinha que ao teatro de verão da escola de um dos seus filhos. Nunca entendi porque ela casou e muito menos porque inventou de ter filhos. Também não compreendo essa neura dela de querer amar e querer ser amada a qualquer custo. Tadinha, ela puta e tem que aceitar isso.

Ok, eu fui com ela. A pateta saiu para fazer um passeio pelos viadutos da cidade. Quase morreu atropelada e intoxicada com o gás carbônicos dos carros que passavam em altíssima velocidade. Dizia, que fazia isso pela paixão. Mas, que paixão é essa que faz a burra perder o fim do dia no meio de uma monte de gente que nem olha na cara dela. Não, eu não consigo entender Suellen.

Enquanto, a ridícula chorava por mais um fora que tinha levado, eu fodia gostoso na banheira do hotel com dois marinheiros que conheci a caminho do hotel. Levei-os comigo para o quarto e nos atracávamos ao lado da ridícula da Suellen que chorava. Entre uma esporada e outra eu dava uns tapa na cara dela. Sempre fui contrário a violência, mas ela masoquista (repito) gostava.

Tudo foi se tornando tão traumático e dramático que resolvi voltar logo para casa. Só fui perceber no trem que o diário dela estava na minha mochila. Suellen resolveu ficar, mas ninguém nem notou a presença dela. Trepam em cima dela e gozavam na sua cara como se o colchão estivesse vazio. Para Suellen essa esmola da proximidade era muito. Não, nunca entendi Suellen.

Por Henrique



por Suellen & suas amigas putas 12:02 AM

___________________

[mardi]

Piquinopolés, 28 de abril de 2007

Suellen sempre foi uma menina prendada. Desde criança ajudava sua mãe com aquelas tarefas que dizem ser das mulheres. Mas, sua mãe virginiana convicta não suportava que ninguém, além dela, arrumasse a casa. Suellen então ficava imaginando quando teria a sua própria casa para arrumar. Eram horas imaginando, imaginando. Quando tinha alguma dúvida perguntava a umas das 5 empregadas belgas que tinha em casa e que junto com Suellen assistiam a patroa fazer o serviço que era delas.

Já crescida, Suellen conheceu um Carinha numa viagem mística que fez a Alto Paraíso. A empatia entre eles era enorme. Gostavam dos mesmos tipos incensos, cristais e das mesmas músicas dos mutantes (na verdade não gostavam, mas Suellen sempre concordava para mostrar como eles eram parecidos). Tal reciprocidade fez com que Suellen instintivamente se convidasse para morar junto com o Carinha na casa dele que achou o máximo (na verdade ele achou que era prematuro, mas concordava para mostrar que eles eram diferentes).

Com os olhos cerrados, Suellen adentrou em seu novo lar montada nas costas do carinha. Pediu que ele a deixasse num ponto central da sala onde pudesse dar um 360° enquanto abria os olhos. O Carinha pôs Suellen em cima da mesa de centro, onde guardava revistas antigas de suecas negras nuas de olhos bicolor (ele achava enigmático). "Un, deux, trois... ouvre les yeux" disse o Carinha. Suellen abriu olhos, girou e ficou encantada. "Que puta bagunça! Amei!!!" pensou.

O Carinha avisou que precisava resolver "uns esquemas na quebrada lá de trás" e que Suellen não esperasse por ele para o jantar e que alias se ela quisesse comer alguma coisa tinha um supermercado a 5 quilômetros à esquerda, mas que pela hora ele já deveria estar fechado. Disse isso e saiu. Mal o Carinha bateu a porta Suellen começou com a arrumação. Estava muito feliz e com certeza não iria se preocupar com comida.

Enquanto limpava se deu conta de as paredes não tinham pintura e que o sofá era muito velho. Achou lindamente retrô, totalmente anos 80. Limpou, arrumou e decorou tudo. As imagens da mãe vieram à mente. Ficou nostálgica ao entender a felicidade que sua mãe sentia quando arrumava a casa e porque só ela podia fazer. Radiante de felicidade borbulhante. Suellen queria dar um toque final e romântico no quarto. "Um porta-retrato com nossa foto!". Como na casa não tinha nenhum, confeccionou um de papel marche com as revistas das suecas. "Ficou lindo! Agora é só revelar o filme da viagem".

Estava no quarto colocando o porta-retrato ao lado da cama quando ouviu a porta se abrir. Tirou toda a roupa e deitou na cama para esperar o Carinha que ela pensava estar extremamente feliz com arrumação e iria querer comemorar fazendo um longo exercício de sexo tantrico aprendido em Alto Paraíso. À medida que o som dos passos ia ficando mais forte e próximo, Suellen se enchia de alegria pura. Quando a maçaneta da porta ia virando, Suellen fechou os olhos. Esperava um "un, deux, trois... ovre les yeux" carinhoso do Carinha. Ouviu a porta se abrir. "Quem é você? Dá lincençaaaa, esse quarto é meu!". Suellen abriu seus olhos e ainda com a visão embaçada viu uma baixinha nariguda e de cabelos curtos encaracolados que fazia uma cara de desdém para ela. Suellen estava confusa, pensou em argumentar, mas ao recuperar a nitidez da vista encontrou o Carinha mudo e parado ao lado da baixinha com expressão indiferente de horizonte sem fim.

Suellen levantou da cama e vestiu toda a roupa calada. Se sentia totalmente trincada. O silêncio e olhar fuzilante da baixinha junto com o não-olhar frio do Carinha a transtornaram. Passou por eles de cabeça baixa, até pensou em dar um "tchau" (poderiam ser amigos, talvez), mas achou melhor não. Já estava saindo quando resolveu voltar e pegar o porta-retrato que tinha feito. Com os olhos novamente embaçados viu a baixinha tirar uma foto dela e do Carinha da bolsa e colocá-la no "seu novo porta-retrato".



por Suellen & suas amigas putas 3:56 AM

___________________